A cama dura
Uma adolescente, um pai e alguns livros
Quando eu era adolescente, gostava de ler como quem respira, com urgência, como quem depende disso para sobreviver. O problema é que lá em casa não havia livros. Nenhum. Ah, tinha o Dona Benta da minha mãe, que ela consultava com dificuldade por ser semianalfabeta.
Meus pais achavam que presente bom era roupa. A mesma coisa em todas as datas comemorativas. Aniversário? Blusa. Natal? Sandália. Páscoa? Se eu desse sorte, uma calça nova e um ovo de chocolate da Pan, pequeno. Livro, nunca.
Mas com o tempo - e com minhas queixas dramáticas de leitora em abstinência a partir de uma biblioteca da escola tão pequena que eu já tinha devorado inteirinha - meu pai começou a desconfiar que talvez houvesse algo de especial nessa coisa chamada livro. Acho que um dia ele percebeu que nenhum vestido me deixava tão feliz quanto um parágrafo bem escrito.
Foi então que, num belo dia, ele apareceu com um sorriso misterioso e disse:
— Comprei um presente pra você. Mas só vai ser seu se conseguir achar onde está.
Pronto. Fiquei em estado de graça e caça literária. Revirei armários, olhei atrás das portas, dentro do fogão (não me pergunte por quê). Nada. Meu pai só ria, encostado na porta, achando graça da minha agonia.
Exausta, me joguei na cama, derrotada. E foi então que senti. A cama estava… dura. Estranhamente dura. A gente era pobre, o colchão não era grande coisa, mas não tão ruim assim! Então me dei conta: havia algo estranho ali embaixo da colcha de chenile.
Quando levantei colcha e lençol, meu coração quase saiu pela boca. No lugar do colchão, cuidadosamente arrumados como se dormissem no meu lugar, estavam um amontoado de livros antigos, de lindas capas de couro. Os livros de capa marrom, descobri logo, formavam a coleção completa de Graciliano Ramos, além de vários volumes em couro verde, que eu descobri conter uma infinidade de obras de Machado de Assis.
Meu pai tinha ido a um sebo, comprado tudo, e escondido os livros sob o colchão, trocando o enchimento de espuma por literatura. “O dono do sebo disse que eram bons”, ele explicou, com aquele sorriso que eu amava tanto. “Eu não entendo nada de livro, não sei quem são esses escritores e aí fiquei preocupado de você não gostar, mas ele garantiu…”. Nem deixei ele terminar de falar, levantei chorando e o abracei, balbuciando repetidos “obrigados”.
Naquele dia, aprendi que amor também pode ter cheiro de livro usado e capa amarelada. E que pais às vezes acertam em cheio, mesmo quando parecem improvisar.
Hoje, toda vez que sinto saudade, lembro daquela cama meio torta e do sorriso dele me observando descobrir o tesouro. Ah, Claudinho, se você soubesse… desde aquele dia, nunca mais dormi sem um livro por perto.



essa versão da princesa que tinha uma ervilha no colchão é sensacional. Aliás, porque colocar uma ervilha debaixo do colchão? Que história sensacional Maga
Delícia de texto, e gostosa forma de compartilhar fatos e momentos de sua vida. Parabéns. Deu vontade de "quero mais"...